segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Preconceito Linguístico e Variações Linguísticas



Um mito bastante arraigado na sociedade brasileira e que é um dos fios alimentadores do preconceito lingüístico é a o mito da unidade da língua portuguesa falada em nosso país. Quantas vezes já ouvimos a seguinte afirmação: no Brasil todos se entendem porque todos falam da mesma maneira; o português falado é um só. 
Essa afirmação, apesar de errônea, é repetida inúmeras vezes por estudiosos da Língua Portuguesa no Brasil. Todavia, esses mesmos estudiosos se olvidam de que nosso imenso país possui variações linguísticas, ou seja, uma mesma palavra é pronunciada de uma determinada forma do Rio Grande do Sul e de outra maneira em São Paulo. É o caso, por exemplo, da fruta mexerica, que no sul do Brasil é conhecida como bergamota. Isso sem falar nos dialetos e regionalismos, e nas diferenças fonológicas das pronúncias de inúmeras palavras. 

Ensina Bortoni-Ricardo que “No Brasil, a variação regional se manifesta mais na pronúncia de alguns sons, no ritmo, na melodia e em algumas palavras.” (BORTONI-RICARDO: 2004, p. 30).
O mito da unidade da língua falada gera, por sua vez, uma conseqüência gravíssima: o preconceito lingüístico. Defendo que a língua falada é una, e esquecendo das diferenças regionais tanto de pronúncias quanto de nomenclaturas, acaba-se tipificando uma determinada região como aquela que fala bem o português e aquela que fala o português todo errado. 
Existe uma crença sobre a superioridade de uma variedade ou falar sobre as demais, sendo isso um mito enraizado na sociedade brasileira. Cabe destacar que toda a variedade de falar é um instrumento identitário de determinada região, ou seja, esse recurso confere aos seus falantes a identidade de um grupo social. Destaca Boroni-Ricardo que “Ser nordestino, ser mineiro, ser carioca etc. é um motivo de orgulho para quem o é, e a forma de alimentar esse orgulho é usar o linguajar de sua região e praticar seus hábitos culturais”.(BORTONI-RICARDO: 2004, p. 33).
A escola, por sua vez, ao não reconhecer a verdadeira diversidade do português falado no Brasil, tenta impor, assim como a mídia, sua norma lingüística como se ela fosse, de fato, a língua comum de todos os brasileiros. 
Destaca Bagno:

Ora, a verdade é que no Brasil, embora a língua falada pela grande maioria da população seja o português, esse português apresenta um alto grau de diversidade e de variabilidade, não só por causa da grande extensão territorial do país – que gera as diferenças regionais, bastante conhecidas e também vítimas, algumas delas, de muito preconceito -, mas principalmente por causa da trágica injustiça social que faz do Brasil o segundo país com a pior distribuição de renda em todo o mundo. São essas graves diferenças de status social que explicam a existência, em nosso país, de um verdadeiro abismo lingüístico entre os falantes das variedades não padrão do português brasileiro – que são a maioria de nossa população – e os falantes da (suposta) variedade culta, em geral mal definida, que é a língua ensinada na escola. (BAGNO: 2005, p. 16). 

Quanto a questão da variação lingüística e a estigmatização de uma língua falada padrão, os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental, datados de 1998, já abriam nosso olhos para tal problema, reconhecendo que existe:

muito preconceito decorrente do valor atribuído às variedades padrão e ao estigma associado às variedades não-padrão consideradas inferiores ou erradas pela gramática. Essas diferenças não são imediatamente reconhecidas e, quando são, são objetos de avaliação negativa. 
Para cumprir bem a função de ensinar a escrita e a língua padrão, a escola precisa livrar-se de vários mitos: o de que existe uma forma “correta” de falar, o de que a fala de uma região é melhor do que a de outras, o de que a fala “correta” é a que se aproxima da língua escrita, o de que o brasileiro fala mal o português, o de que o português é uma língua difícil, o de que é preciso “consertar” a fala do aluno para evitar que ele escreva errado. (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO: 1998, p. 31). 
A questão da variação lingüística está inteiramente ligada ao preconceito lingüístico, já que quando uma variante é tida como correta, as demais são denominadas incorretas, sofrendo, assim, as pessoas que a pronunciam preconceito lingüístico.
É preciso, urgentemente, que se abandone esse pensamento preconceituoso de existir somente uma variante falada correta do português brasileiro. Assim, “É preciso, portanto, que a escola e todas as demais instituições voltadas para a educação e a cultura abandonarem esse mito da “unidade” do português no Brasil e passarem a reconhecer a verdadeira diversidade lingüística de nosso país para melhor planejarem suas políticas de ação junto à população amplamente marginalizadas dos falantes da variedade não-padrão”. (BARGNO: 2005, p. 18).
Contudo, o em que se baseia o preconceito lingüístico? Por que ele ocorre?
Infelizmente, o preconceito lingüístico ocorre porque, em pleno século XXI, ainda vigora na sociedade brasileira a ideologia lingüística conservadora e retrógrada que sustenta um forte preconceito lingüístico abastecido pela perpetuação de uma série de mitos irracionais sobre a língua falada no Brasil. Esse preconceito acaba, por sua vez, sendo assumido pelo próprio falante-vítima, despertando nele um sentimento de auto-aversão lingüística.
Ensina Bagno, quanto ao embasamento do preconceito lingüístico:

O preconceito lingüístico se baseia na crença de que só existe [...] uma única língua portuguesa digna desse nome e seria a língua ensinada nas escolas, explicada nas gramáticas e catalogada nos dicionários. Qualquer manifestação lingüística que escape desse triangulo escola-gramática-dicionário é considerada, sob a ótica do preconceito lingüístico, “errada, feia, estropiada, rudimentar, deficiente”, e não é raro a gente ouvir que “isso não é português”. (BAGNO: 2005, p. 40). 
O preconceito baseado na fala de determinadas regiões, preconceito esse transmitido pela mídia, através de novelas, programas televisivos, reportagens, além de ignorante é cruel, pois estigmatiza determinadas regiões do Brasil. 
Assim, o povo brasileiro que não fala a língua tida como padrão pela mídia e pelas classes sociais mais altas é duplamente marginalizado. Uma vez por sentir-se fora dos padrões sócias ditados pela mídia, e outra vez por ver, nessa mesma mídia, seu jeito de falar retratado inadequadamente, com objetivo de deboche. Infelizmente, a televisão brasileira tipifica um modo somente de falar, pois é expressamente proibido aos seus atores e atrizes apresentarem algum sotaque em novelas e demais programas, existindo um treinamento para que todos falem a mesma língua, como se no Brasil só existisse uma maneira de pronunciar as palavras. 
Já passou da hora dessa concepção de língua única ser enterrada. É a hora do povo valorizar a sua cultura, e a língua faz parte da cultura, o sotaque e a variação lingüística brasileiras fazem parte de nossa cultura e tornam a nossa língua mais rica. 
Conforme Luft:

Uma língua viva está em constante evolução: dialetos, gírias, neologismos, estrangeirismos, tudo faz parte dela, dessa ebulição que a mantém animada. Portanto, ainda que hoje se conseguisse uma Gramática explícita do português brasileiro, digamos da década de 90, em breve ela estaria desatualizada, e o professor, obrigado a novos ajustes. (LUFT: 1998, p. 98). 
Há diferentes maneiras de se nomear determinadas plantas, determinados objeto, como ocorre com a mandioca, que é conhecida na região Sul com o nome de aipim. Isso só acrescenta ao nosso português brasileiro, tornando-o cada vez mais rico culturalmente. Por isso, é preciso garantir a todos os brasileiros o reconhecimento da sua variação lingüística, e não o deboche das mesmas. Essa deve ser mais um luta do nosso povo, contra mais esse tipo de preconceito, dentre tantos outros sofridos por nós, cidadãos brasileiros afinal, respeitar a variedade lingüística de toda e qualquer pessoa equivale a respeitar a integridade física e espiritual dessa pessoa como ser humano, nunca nos esquecendo que qualquer comunidade sempre apresentará variação lingüística. 


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